Citroën prepara volta do 2CV como elétrico de baixo custo
Updated: April 9, 2026
Marca levará conceito ao Salão de Paris de olho em nova faixa de entrada
Após anos de rumores, avanços e recuos, a Citroën decidiu levar adiante o renascimento de um de seus modelos mais emblemáticos. O ultra popular 2CV (1948-1990) voltará à cena como carro elétrico e já tem apresentação prevista: um conceito será revelado no próximo Salão de Paris, em outubro.
Segundo o site britânico “Auto Express”, o CEO Xavier Chardon deu sinal verde ao desenvolvimento do carro e já programou sua estreia, alinhando o lançamento ao avanço de novas regulamentações da União Europeia que incentivam a produção de compactos elétricos mais acessíveis.
Essa guinada estratégica não ocorre por acaso. O bom desempenho comercial do Renault 5 E-Tech, que já supera 120 mil pedidos, e a expectativa em torno do novo Twingo indicam uma demanda crescente por compactos elétricos com identidade histórica.
O projeto está sob o comando do diretor de design Pierre Leclercq. Sua ideia é transportar para os dias atuais os princípios que nortearam o 2CV original — extrema simplicidade construtiva, baixo custo, conforto e praticidade — reinterpretando-os dentro das exigências modernas de eletrificação e mobilidade. Trata-se de atualizar o conceito de “quatro rodas sob um guarda-chuva”, lançado em 1948, sem que o novo carro seja um pastiche do antigo.
Alguns elementos clássicos estão em discussão, como o tradicional teto de enrolar em lona, um dos maiores charmes do 2CV original. Sua adoção dependerá de limitações estruturais da nova arquitetura. De qualquer forma, a proposta não é recorrer a soluções caricatas, mas adotar uma abordagem neo-retrô com referências discretas (em 2009, a Citroën já tentou algo parecido com o conceito Revolte, que não foi adiante).

“Se você pensar no 2CV como um carro barato para áreas rurais, é fundamental preservar sua filosofia e seus valores. Se for possível reinterpretá-los em um carro atual, então vamos em frente”, disse Leclercq ao site britânico.
Agora, a base escolhida é uma evolução da plataforma “Smart Car” (SCP), já presente nos atuais C3 e C3 Aircross, além do Fiat Grande Panda europeu e do futuro Argo nacional. Essa arquitetura foi pensada para reduzir custos e permitir diferentes tipos de motorização.
Engenheiros avaliam até onde a SCP pode ser simplificada para dar origem a um veículo posicionado abaixo do C3 e acima do pequenino Ami, que sequer é considerado automóvel pela Citroën, mas sim uma “solução de mobilidade”. O objetivo é ocupar a faixa próxima dos 20 mil euros (R$ 120 mil), hoje ainda pouco explorada pelos elétricos europeus.
Embora a Citroën não divulgue especificações, projetos equivalentes trabalham com baterias próximas de 27,5 kWh, autonomia ao redor de 260 km e motores elétricos de cerca de 80 cv. A proposta, portanto, deve priorizar leveza, eficiência energética e custo reduzido, deixando o desempenho em segundo plano, exatamente como ocorria no 2CV original.
A estratégia também passa pela cadeia de fornecimento. A Stellantis já anunciou uma joint venture com a chinesa CATL para produzir baterias na Espanha a partir de 2026, o que pode ajudar a reduzir custos e atender às exigências europeias de conteúdo local.
Se o cronograma for seguido, o conceito servirá de base para um modelo de produção a ser lançado até o fim da década — possivelmente no Salão de Paris de 2028, marcando os 80 anos da estreia do 2CV original na mesma exposição.


“Kei car europeu”
A União Europeia discute um pacote regulatório que pode reformular o papel dos carros elétricos urbanos. O plano prevê a criação da categoria M1E, específica para veículos compactos, leves e mais acessíveis — um produto de massa, próximo ao conceito de “kei car europeu”. https://motor1.uol.com.br/news/772148/plano-europa-carros-eletricos-baratos/
No centro da proposta “Small Affordable Cars Initiative” (Iniciativa de Carros Pequenos Acessíveis) está a criação de uma categoria específica para elétricos de até 4,2 metros de comprimento e 1,5 tonelada, com exigências mais flexíveis que as dos automóveis convencionais.
Entre as medidas em estudo estão simplificações regulatórias, incluindo trechos das normas de segurança e exigências ligadas ao pacote de impacto ambiental Euro 7, que acabam elevando custos de engenharia mesmo em veículos elétricos.
A ideia é cortar gastos de engenharia e produção, algo essencial diante da pressão dos elétricos chineses e da dificuldade das marcas europeias em oferecer modelos realmente acessíveis. Aplicar nos subcompactos urbanos os mesmos níveis de exigência dos carros maiores tem inviabilizado o segmento.
O pacote também prevê vantagens no uso dos pequenos elétricos, como acesso facilitado a estacionamento, zonas restritas e infraestrutura de recarga. A proposta reforça o papel desses modelos como solução prática para centros congestionados, em linha com o conceito que sustenta os kei cars no Japão.


Retrofit de 2CV já é comum na Europa
Enquanto o novo Citroën 2CV BEV não vem, muitos europeus já vêm convertendo seus velhos Deux Chevaux, modelo que se presta bem à eletrificação por ser extremamente leve (575 kg). Esse tipo de transformação — chamada de retrofit — vem se tornando tão popular que há diversos kits prontos no mercado.
A ideia é retirar o motor a gasolina (boxer de dois cilindros, refrigerado a ar) e instalar o novo conjunto elétrico. Os puristas não precisam se preocupar: essas soluções permitem reverter totalmente o carro às condições originais quando o proprietário bem entender.
O kit mais conhecido para o clássico é o R-FIT, desenvolvido pela MCC Automotive para o 2CV Méhari Club Cassis, que mantém uma parceria histórica com a Citroën. Foi a primeira solução de retrofit homologada oficialmente na França.
O conjunto utiliza um motor síncrono de 20 kW (27 cv), potência semelhante à do boxer original de 602 cm³, mas com torque instantâneo que melhora a resposta no uso urbano. A bateria de lítio-ferro-fosfato (LFP) tem 10,2 kWh e garante autonomia de apenas 90 km no ciclo WLTP.
A recarga pode ser feita em tomada doméstica de 220 V, com tempo de 0 a 100% em aproximadamente 3h30. O motor elétrico trabalha acoplado ao câmbio do carro, preservando a característica alavanca “cabo de guarda-chuva” sob o painel. Na prática, porém, é possível rodar a maior parte do tempo em terceira marcha graças ao torque constante do motor elétrico. A instalação leva cerca de 20 horas e inclui montagem das baterias (sob o banco traseiro ou no porta-malas), novo painel e sistema de gerenciamento eletrônico.
O R-FIT não é vendido como kit “faça você mesmo”: a instalação obrigatória em centros autorizados faz parte da homologação, garantindo que o carro convertido possa ser legalizado como elétrico. E o pacote não é barato: custa cerca de 14 mil euros (R$ 84 mil), já com peças, bateria e mão de obra. Em países como a França, incentivos públicos podem reduzir esse valor em até 5 mil euros.






